Lucas do Rio Verde/MT - 17/04/2026 12:40 am

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Acúmulo de secretarias acende alerta sobre gestão e eficiência em Lucas do Rio Verde

O acúmulo de funções em secretarias consideradas estratégicas ganhou holofotes nesta segunda-feira (06) em Lucas do Rio Verde. Durante a sessão ordinária, o presidente da Câmara Municipal de Lucas do Rio Verde, Airton Callai, fez um alerta direto: a gestão pública não comporta improvisos quando o assunto é tempo, responsabilidade e complexidade administrativa.
Ao iniciar sua fala, Callai reconheceu o trabalho da ex-secretária de Saúde, Fernanda Ventura, destacando os desafios da função. “Não é fácil ser secretário, é 24 horas ligado. Todo mundo liga, todo mundo cobra solução, desde uma vaga de UTI até situações críticas do dia a dia”, afirmou.
Mas foi ao abordar o atual cenário administrativo que o tom subiu. Sem questionar a capacidade técnica do atual gestor, o presidente da Câmara foi enfático ao apontar o problema central: falta de tempo. “Eu não estou falando de capacidade, estou falando de tempo. São duas pastas pesadíssimas, que exigem 100% da pessoa. Saúde não pode ser 50%, planejamento não pode ser 50%”, disse.
A crítica se concentra na concentração de duas secretarias estratégicas sob um único comando, justamente em um momento considerado decisivo para o município. Entre os desafios citados estão a revisão do plano diretor — que deve nortear o crescimento da cidade pelos próximos 30 anos —, além de demandas estruturais como mobilidade urbana, BR-163, anel viário, ferrovia e expansão urbana. “Tudo isso demanda tempo e conhecimento. E ao mesmo tempo, a saúde exige presença constante, negociação com hospital, consórcios, gestão de equipes. Não vejo condição de fazer as duas coisas com excelência”, reforçou Callai.
O presidente também chamou atenção para um ponto sensível nos bastidores da gestão pública: a dificuldade de atrair e manter profissionais qualificados para cargos de alto nível. Segundo ele, a remuneração, embora considerada alta por parte da população, não acompanha o grau de responsabilidade exigido.
“Às vezes se fala que ganha R$ 18 mil, mas é uma função de dedicação integral, com orçamento milionário e decisões que impactam milhares de pessoas. Precisamos repensar isso”, pontuou, ao comparar com profissionais da iniciativa privada que conseguem rendimentos superiores com menor nível de exposição e responsabilidade.
Outro aspecto levantado foi a própria dificuldade de reposição no comando da saúde após a saída da titular. “O que me assustou foi isso: não tínhamos alguém para colocar no lugar. Isso reflete em várias coisas, inclusive na atratividade do cargo”, afirmou.
Ao longo do pronunciamento, Callai deixou claro que sua fala não se trata de ataque político, mas de um “alerta de quem conhece a máquina pública”. “O amigo fala. O outro torce para dar errado. Eu estou alertando”, disse.

O pano de fundo da discussão revela um dilema recorrente em administrações públicas: a tentativa de enxugar estruturas sem comprometer a eficiência. No entanto, como destacou o presidente, há um limite claro entre economia e sobrecarga — e ultrapassá-lo pode custar caro.
Em um município que já ultrapassa 120 mil usuários cadastrados na rede de saúde, mesmo com população oficial menor, a equação se torna ainda mais delicada. A demanda cresce, a complexidade aumenta e, segundo o Legislativo, a gestão precisa acompanhar esse ritmo.
“Precisamos de secretários 100%. Não tem como tocar duas pastas dessa magnitude com a excelência que a população espera”, concluiu.
A fala acende um debate necessário: até que ponto a concentração de poder e funções contribui para a eficiência — ou, ao contrário, compromete decisões estratégicas em áreas que exigem presença, técnica e, sobretudo, tempo integral.

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